Leiria, Leiria

Rituais e Costumes

ENTERRO DO BACALHAU
Teatro de rua com história
De cariz marcadamente pagão, a encenação teatral percorre as ruas da aldeia do Soutocico, na noite de Sábado de Pascoela e termina numa monumental ceia de bacalhau.
O Enterro do Bacalhau foi representado pela primeira vez no Soutocico em 1938. Depressa se tornou o ex-libris histórico-cultural da povoação, ainda que tenha sido proibido pelo regime de Salazar, a pedido das instâncias religiosas.
Mas aconteceu Abril de 1974 e o Clube Recreativo e Desportivo do Soutocico decidiu reeditar o evento. Muito embora as autoridades religiosas voltassem a manifestar-se contra, certo é que, apesar da controvérsia, o Enterro do Bacalhau voltou às ruas em 1976, após 38 anos de esquecimento.
Porque é que enterramos o Bacalhau?
Durante muito tempo, a igreja Católica proibiu o consumo de carne durante a Quaresma, abrindo exceção apenas a todos aqueles que comprassem a bula. Este indulto só servia os mais abastados, enquanto os desfavorecidos, a grande maioria, teriam de se socorrer do peixe na sua alimentação durante estas sete semanas. O peixe mais acessível era o bacalhau, que assim se implantou nos lares dos pobres como sendo o seu salvador.
O povo revoltou-se contra esta determinação, não sem que antes criasse esta festividade pagã, como sentimento de revolta pela sua impotência.
Cozinhado de mil e uma maneiras, o bacalhau foi rei absoluto durante o período da Quaresma, findo o qual, o tribunal fantoche o julgou e o condenou à morte, por inveja da sua popularidade. O advogado de acusação, o traidor Filho da Maria Malvada, fundamentou o seu ataque no facto de, durante o período de abstinência, só lhe ter calhado do “malcheiroso, do escamudo, do mal curtido, do seco e do rabo e asa”.
Imagine-se um cortejo fúnebre pelas ruas da aldeia, com um matizado fantástico dos coloridos trajes, grotescamente iluminados pela infinidade de archotes que o acompanham.
Entre cânticos e ao som da marcha fúnebre de Chopin, o cortejo inclui quatro sermões: Vida e Morte do Bacalhau, Testamento do Bacalhau, Exéquias do Bacalhau e a Queima do Judas, sempre povoados de sátira sociopolítica e adaptados a cada edição. Este espetacular teatro de rua humorístico conta com aproximadamente trezentos figurantes, todos filhos da terra, e orgulhosos por manterem viva uma tradição com mais de oitenta anos.
À encenação teatral segue-se um convívio acompanhado de boa música, bar e restaurante pela noite dentro. E terminamos todos a chorar a morte do fiel amigo, o Bacalhau.
Entretanto, e desde o início da noite, decorre o 5.º Congresso Gastronómico do Bacalhau.
Uma experiência única
O Enterro do Bacalhau é por todos considerado uma experiência única e inesquecível.
Espectadores, figurantes e staff são unânimes: por mais vezes que participem, há sempre novidades que justificam o regresso, ou não fosse a atualidade sociopolítica uma grande fonte de inspiração para os textos.
A participação dos espectadores no cortejo fúnebre potencia a prestação dos nossos atores, conferindo ao evento dimensão e notoriedade ímpares, e aos participantes uma experiência única, gratificante e memorável.
Realizado a cada quatro anos, é da responsabilidade do Clube Recreativo e Desportivo do Soutocico, mas a organização e a promoção do Enterro do Bacalhau envolve toda a população da aldeia. Só assim se consegue todos os quatro anos trazer à rua um imponente espetáculo teatral, absolutamente amador.
A próxima edição é precisamente este ano, no dia 18 de abril de 2020.

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