Alcanena, Santarém

Artefactos

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A Manta de Minde®
O espaço natural é o suporte e, muitas vezes, a condição da acção humana.
Minde é uma vila no extremo NW do distrito de Santarém. Na sua posição natural em relação às unidades de relevo que a enquadram, está uma grande parte da sua personalidade. Situa-se nas margens do polje, tendo à sua volta, os cumes aguçados (penas) da Costa de Minde e as lombas da Serra d’Aire, que lhe delimitam o horizonte. Esta realidade favorece o seu isolamento e ajuda a compreender o quanto foi difícil a adaptação do homem a estas terras da sede. O calcário domina a paisagem e a gente de Minde teimou em permanecer aí, mesmo quando à força de arrotear a terra, esta lhe continuava a aparecer nua e pobre; as esperanças assentavam numa tira de felgar e no polje inundável no Inverno.
Uma agricultura pobre associava-se à pastorícia. Os rebentos das plantas da garrigue e as ervas rasteiras, eram o pasto para cabras e ovelhas, gado miúdo e pouco exigente. Daqui se abriram novos rumos para a vida dos mindericos – as actividades ligadas às lãs. O Minderico cuidava do seu rebanho, tosquiava, lavava, cardava, fiava, tecia para si e para os seus. O mundo limitado em que vivia, desencadeou a vontade e a necessidade de cardar por conta de estranhos. Afastou-se, foi pelas aldeias das serras vizinhas; afastou-se cada vez mais e, começou a comprar lã nos sítios onde trabalhava. Trouxe-a para Minde, lavou-a, cardou-a, fiou-a e transformou-a em panos, buréis, estamenhas e mantas. Por todo o país foi vendendo o que as mulheres e a gente mais nova teciam em casa, trazendo de volta dinheiro, produtos de primeira necessidade e mais lã para lavar, cardar, fiar e tecer.
De uma maneira inteligente, os mindericos, nos seus negócios usavam uma variedade linguística própria (A Piação dos Charales do Ninhou), hoje, a Língua de Minde.
Deslocando-se, primeiro a pé ou utilizando montadas, depois em carrinhas de caixa aberta, os manteiros percorriam principalmente o sul do país, vendendo as suas mantas:
– “manta preta” – usa a lã nas suas cores naturais (castanha e branca). O pastor protegia-se com ela do frio e da chuva;
– “manta parda” – surge com cores vivas, em barras, nas pontas. Apesar da escassez e das limitações na utilização da água, nos anos 30 do séc. XX surgiu em Minde a 1ª tinturaria e com ela, estas novas possibilidades;
– “manta sombreada” – é toda com riscas de 6 tonalidades diferentes e progressivas de verde, castanho e laranja;
– “manta janota” – uns anos depois, aparece a janota, de cores fortes nas suas composições muito trabalhadas. Este processo implica uma grande destreza e coordenação de movimentos.

O apogeu no número de teares e na produção atingiu-se nos anos 50 do século XX, mas, nos anos setenta, os teares foram desaparecendo: uns foram abandonados, outros estragaram-se, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha, poucos se salvaram. Destes, aproveitaram-se algumas peças e outros apetrechos complementares para a montagem do atelier que o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro dirige. Aqui alia-se a tradição e a memória com a contemporaneidade. Na manufactura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção. Trabalham aqui 3 tecelões jovens e as mantas são vendidas mediante parcerias estratégicas para o mercado interno e externo.
Numa natureza hostil, os mindericos jogaram com as circunstâncias locais, estabeleceram relações, substituíram forças. É, assim que, com o tempo, o território se precisa e a Manta de Minde aparece como uma medalha cunhada com a efígie deste povo.

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