São João da Madeira, Aveiro

Artefactos

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Em meados do século XX, nas ruas de S. João da Madeira, quando se ouvia gritar “péu, péu” era porque alguém tinha tido a ousadia de sair à rua com a cabeça a descoberto. Num tempo em que era comum o uso de chapéu, em terra de chapeleiros todos tinham de usar chapéu.
O chapéu de feltro é um objeto de vestuário com a função de proteger do frio e do sol dos dias. Mas para além do seu cariz utilitário, o chapéu de feltro ganhou no tempo longo o valor simbólico de identificar profissões, classes sociais, etnias e grupos religiosos. Os primeiros chapéus de feltro produzidos em S. João da Madeira foram chapéus de lã grossa com aba larga vendidos para os camponeses do Alentejo e pequenos chapéus de aba revirada usados pelas varinas da Beira marítima. Atualmente, continuam-se a produzir em S. João da Madeira feltros para os chapéus dos cowboys do Texas, para a Polícia Inglesa Feminina, para a cabeça das hospedeiras de inúmeras companhias aéreas, para as passarelas da moda de alta-costura, entre muitos outros.
S. João da Madeira é, atualmente, o único centro de produção de chapéus de feltro em Portugal. Com origem em pequenas oficinas artesanais, a produção de chapéus de feltro sofreu um processo de industrialização, que conduziu à introdução de processos mecânicos, não deixando de preservar conhecimentos e processos artesanais que dão destaque ao toque e ao trabalho manual, fundamentais para a qualidade de fabrico dos chapéus de feltro. Com a concentração da produção chapeleira em poucos lugares do mundo, as fábricas de S. João da Madeira conjugam, hoje, a preservação de técnicas tradicionais com o desenvolvimento interno de tecnologias inovadoras.
Os chapéus de feltro podem ser produzidos em diversas matérias-primas, desde a lã ao pelo de coelho, lebre e castor. Após a preparação da lã ou do pelo, dá-se início à produção do cone de feltro, através do processo de feltragem, que consiste no entrelaçamento das fibras naturais através de movimentos de compressão e vibração, em ambiente húmido e ácido. A etapa seguinte é o tingimento, ao que se segue a transformação do cone de feltro em chapéu. Dá-se forma à copa e às abas, afina-se o chapéu para dar um aspeto macio e fino e acaba-se costurando o forro, a fita e outros ornamentos.
É ao setor da produção de chapéus de feltro que são atribuídos os primórdios da industrialização de S. João da Madeira, bem como a modelação de uma classe trabalhadora local. No romance Unhas Negras (1953), João da Silva Correia trata o quotidiano e as lutas operárias dos chapeleiros ameaçados pelas máquinas, no início do século XX. Os “unhas negras” eram os chapeleiros que realizavam manualmente o processo de feltragem da lã e do pelo, onde devido ao contacto com o elemento químico mercúrio, necessário para a consolidação da união das fibras, acabavam por ficar com as unhas negras. Em S. João da Madeira, a expressão “unhas negras” passou a ser sinónimo de chapeleiros, em jeito de homenagem à dureza desta atividade. Hoje, mesmo com a diversificação das atividades ocupacionais, na grande maioria das famílias sanjoanenses continua a não ser difícil encontrar antepassados ligados à chapelaria.
Apesar do declínio do uso do chapéu de feltro e, consequentemente, da indústria de chapelaria, esta é uma atividade que continua viva e dinâmica em S. João da Madeira. Os únicos produtores nacionais de matéria prima e de feltro para chapéus situam-se em S. João da Madeira. Já os acabamentos dos chapéus podem ser feitos numa empresa do concelho ou em duas empresas de freguesias vizinhas.
O crescimento da atividade produtiva destas empresas, direcionadas essencialmente para a exportação, demonstram como estas se têm sabido adaptar às dinâmicas económicas e de mercado, com um número de chapeleiros que tem voltado paulatinamente a crescer, assegurando dinamismo e vitalidade à atividade, bem como a continuidade da sua transmissão.
A abertura do Museu da Chapelaria e a criação dos circuitos de Turismo Industrial, onde é possível conhecer de perto o mundo mágico dos chapéus, contribuem de igual modo para a preservação, valorização e divulgação da produção de chapéus de feltro, bem como para o reforço simbólico dos laços de uma comunidade que cresceu em torno dos chapéus.

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